Uma Rede se faz entre nós

Uma Rede se faz entre nós.

“Rede é uma porção de buracos, amarrados com barbante.”

Guimarães Rosa

A radicalidade da REDE Sustentabilidade nos abre um campo vasto de possibilidades – não aquelas já dadas, mas aquelas que podem ser criadas. Como vamos aprender a perceber e a agir diante desta vastidão?

Há 35 mil anos, alguns de nossos ancestrais pegaram um punhado de argila e carvão, pressionaram contra uma parede da Caverna de Chauvet, no sul da França, e imprimiram o que hoje conhecemos como a manifestação humana mais antiga já encontrada. Por mais de 5 mil anos, gerações de seres humanos voltaram àquela caverna e criaram centenas de representações incrivelmente detalhadas de cavalos, ursos, veados, que parecem se movimentar com as sombras projetadas pelo fogo.

Dizem que todos que vêem esse lugar são acometidos de um impacto emudecedor, um sentimento de profunda humildade que nos conecta a um fio que liga toda a humanidade. Por meio daquela parede vimos a nós mesmos, gerações se comunicaram, cooperaram, contaram histórias.

Nas entranhas de uma caverna imponente, na escuridão e silêncio quase absolutos, um pequenino ser humano afirma para si mesmo que ele existe. Tem início a reflexão, a linguagem, a consciência e o seu legado: a percepção de que não terminamos em nós mesmos. A capacidade de criar representações para nossas experiências nos fez romper os limites do tempo, do espaço e da matéria. Meu corpo morre, mas minhas ideias ficam e são importantes para outros como eu 35 mil anos depois.

Continentes se moveram, oceanos desapareceram, civilizações começaram e terminaram. Em um mundo de ciclos e metamorfose constante nós mudamos, mas algo, que também somos nós, permanece. E com essa consciência vem a responsabilidade: o que de mim permanece? Ficará algo de bom, ou algo de ruim?

Quando aprendemos a criar representações na parede da caverna, aprendemos, também, a fazê-lo uns nos outros. Saímos daquela caverna, mas ela nunca saiu de nós, porque aprendemos a deixar nos outros um pouco do que somos, e a ser um pouco de todos. E, assim, por meio das sociedades que construímos, vemos a nós mesmos e contamos histórias que atravessam gerações, em um esforço humano de permanecer e se desenvolver.

Como aquele pequenino na caverna, em algum momento, nos aterrorizamos com nosso próprio tamanho, com a vastidão de nós mesmos. Afinal, como é possível que sejamos maiores do que a caverna, do que o escuro, do que as eras?

Esse medo impede alguns de nós de deixar sua contribuição, com isso se enfraquece aquele fio que nos conecta.

Mas porque falar tudo isso em um texto para pessoas que estão construindo um partido político?

Porque é exatamente o que vivemos.

O mundo passa por transformações: novas práticas políticas, econômicas, sociais eclodem e não se encaixam nos modelos antigos; o país encerra um ciclo e a REDE Sustentabilidade é algo que vai para além de nós. É um “pequeno grande” gesto que rompe os limites do tempo e do espaço que temos como indivíduos; uma obra criada a muitas mãos, em cooperação entre gerações que vieram antes de nós e virão muito depois.

Um projeto profundo e radical, tão imponente quanto aquela caverna, às vezes tão desconhecido quanto o escuro que havia nela e tão intimidador quanto o seu silêncio. Um novo espaço que oferece a toda uma nação se reconectar com os valores e as virtudes de uma sociedade sustentável. Por uma sociedade na qual os políticos são formadores de cidadania plena e expressam a inteligência coletiva; os conhecimentos vivos e o diálogo entre gerações são a base da educação; a economia compreende que os valores vão além dos monetários; e na qual a colaboração é estruturante. Uma sociedade que honra e cuida do que a natureza oferece e, por isso, amplia cada vez mais o sentido de “Ser Humano”.

Esse projeto assusta pelo seu tamanho, pelo esforço e responsabilidade que exige de nós. Ele precisa que nos conectemos com o que há de mais humano em nós, porque basta um ser humano que estenda a mão e ouse imprimir seu traço na parede. Basta um ser humano que FAZ e, dessa forma, horizontes nunca imaginados se abrirão, novas linguagens se criarão, com possibilidades e compreensões renovadas. Porque, assim como aconteceu com nossos ancestrais, esses esforços desenvolvem novos órgãos de percepção e de ação, que nos transformam na matéria prima da sociedade que queremos.

Há quem fique com medo por identificar na REDE algo que há muito tempo falta no cenário político brasileiro, algo muito poderoso, que poucos ousaram conquistar: uma atitude radical para a transformação integral da política. Qual outro espaço seria viável para tornar a política a permeável às forças vivas da sociedade?

Na REDE não precisamos justificar nossa existência em função de um inimigo, pois já aprendemos que este é o caminho que nos levaria a nos tornarmos sua réplica. Nosso símbolo (a fita de Moebius) remete ao reconhecimento de que o “dentro” e o “fora” não estão separados e que, portanto, a transformação do mundo só pode ser feita conjungada com a nossa própria. Ou seja, a REDE só prestará um serviço real à sociedade se o fizer internamente. Só faremos um país mais justo, ético, sustentável, se também o fizermos como indivíduos e como grupo. Sabemos que esse não é um desafio trivial.

Mas temos algumas vantagens, em nosso “DNA”. Por exemplo: como não nos pautamos por agendas ocultas (já que o poder pelo poder não é nossa meta, mas sim o poder como serviço) estamos desimpedidos para refletir sobre nosso próprio fazer. Em Brasília, o elo distrital realizou o I Encontro de filiados que teve como mote “que a distância entre o discurso e a nossa prática política cotidiana seja cada vez mais curta, até não mais existir”.

Esta auto-reflexão só é possível porque, ao contrário dos partidos convencionais, temos espaço interno para reconhecer quando e onde nosso discurso e prática estão distantes. Com isso, a REDE torna-se um espaço único de liberdade para uma ação transformadora: nossos próprios limites e contradições são matéria-prima da transformação que viemos a fazer no mundo.

Isso significa que nossa responsabilidade, não apenas como grupo, mas como indivíduos desse grupo, ganha outra dimensão. Como nosso pequenino ancestral fazendo o que ninguém ainda havia feito. Como assumir nosso real poder quando a vida toda aprendemos a delegá-lo a outras pessoas? Sabemos o que é e como é estar em rede? Sabemos o que é e como é ser sustentável? Quais habilidades e competências precisamos desenvolver para isso? Conseguimos enfrentar juntos o que, em cada um de nós, nos impede de darmos nossa melhor contribuição? Conseguimos nos escutar, nos apoiar, reconhecer, honrar e aprender com nossos erros?

O fato é que a REDE assusta, porque esta radicalidade gera um potencial único de reunir muita gente boa. E ninguém ainda consegue conceber o que essas pessoas podem fazer juntas: aí é que está a nossa vastidão de possibilidades e, portanto, de responsabilidades.

O Brasil vive uma crise de referências, seja na política, educação, cultura, ciência, por isso estamos tão suscetíveis aos discursos vazios e polarizados. Porém, as referências que precisamos já existem! Elas só estão dispersas, frustradas e intimidadas por um cenário político e social confuso. E a REDE é, sem dúvida, um dos espaços mais potentes de convergência dessas muitas referências.

Como pode então a REDE realizar este potencial?

A resposta só depende de nós criarmos laços firmes, ao mesmo tempo reconhecendo que a essência das redes, como disse o poeta, está nos buracos: a REDE nasce para “ocupar de vazios” os espaços da política e, assim, criar uma outra espacialidade que permite a mudança, o surgimento de novas soluções, outras lideranças, diferentes realidades e novas conexões entre bordas e centros. É essa “verdade entre nós” que permite a transformação política profunda.

Podemos enxergar a REDE como um grande laboratório de sociedades sustentáveis, uma ferramenta para colocarmos valores e conceitos em prática, testarmos soluções, aprendermos uns com os outros … um processo amplo, horizontal, vivo – que sustenta nossa ação no mundo, e é sustentado por cada um de nós. Neste momento, cada gesto nosso é definidor do jeito de ser desta Rede.

Em breve teremos a REDE registrada, pronta para realizar sua nobre missão. E se no futuro vamos nos orgulhar dela, juntos, depende do trabalho e das “pequenas grandes” escolhas de cada um de nós. Vamos contar essa história para nossos netos, e eles para os netos deles (como na parede da caverna), sobre como ajudamos a trazer um pouco de equilíbrio social, ambiental e político para um mundo desenfreado e em crise.

A radicalidade da REDE nos abre um campo vasto de possibilidades – não aquelas já dadas, mas aquelas que podem ser criadas. Como vamos aprender a perceber e a agir diante desta vastidão?

Se há uma resposta  … está entre nós.

Rangel Mohedano e Eduardo Rombauer.

Julho de 2015.

 

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