autoconhecimento e virtudes, na prática

Este é um ensaio sobre a relevância do autoconhecimento para nutrirmos virtudes no mundo contemporâneo, em que somos desafiados a conciliar nossas práticas às mudanças que desejamos ver  acontecer. Nele busco argumentar que nossas virtudes podem ser melhor compreendidas em conexão reflexiva com as nossas experiências de vida, e como, na prática, o exercício do autoconhecimento fortalece a esta busca.

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Certa vez um professor de filosofia, em uma aula sobre ética, contou uma história sobre o modo que seu pai o tratava quando excedia os limites do bom comportamento:

“Ele chegava, tirava o cinto e dizia quatro coisas. As três primeiras eu nunca tive dificuldade de entender, mas a quarta me levou muitos anos. Dizia assim: “Você vai apanhar, certo?” Eu dizia que sim. “Você sabe por que você vai apanhar?” Eu respondia: é claro! “Você merece apanhar?” Novamente: Sim. E, em quarto lugar, ele me olhava carinhosamente e dizia: “Filho, eu por mim não bateria em você. Mas como eu sou o teu pai, eu tenho que fazê-lo”.

No ano passado, foi proibido por lei no Brasil qualquer tipo de agressão física a uma criança por parte de seus pais, considerando oficialmente este tipo de tratamento uma atitude covarde.

Este pequeno exemplo mostra como o que se entende como virtude varia conforme diferentes culturas e períodos históricos. O significado de “coragem”, por exemplo, é profundamente influenciado por mitos e arquétipos, como a noção do que é ser um “herói” significa. Os heróis deste pai eram muito diferentes dos heróis de meu professor, e o mesmo vale para os heróis da juventude de hoje. Esta mudança nos símbolos das gerações influencia todos os tipos de práticas, incluindo a paternidade e a educação. Já na cultura tradicional chinesa, o significado de coragem pouco se assemelha ao nosso: o indivíduo não é “corajoso”, mas “propenso à coragem” em determinada circunstância, e talvez não em outras. Ou seja, a coragem é compreendida como uma virtude contextual, como uma questão de potencial inerente a uma situação, e não ao indivíduo.

Ainda que haja profundas diferenças nestes entendimentos, há pensadores que buscam identificar as virtudes universais da humanidade. No centro desta reflexão estão as quatro virtudes cardinais dos filósofos Socráticos: As Virtudes Cardinais – justiça, coragem (ou fortaleza), prudência e temperança – atravessaram milênios, seus significados foram transformados ao se mesclarem com o cristianismo, prevaleceram durante a Idade Média e permaneceram como referências no desenvolvimento da nossa civilização ocidental.

Através deste percurso histórico uma parte importante do legado grego se manteve vivo. Porém algumas de suas características essenciais foram deixadas para trás, provavelmente porque colidiram com poderes hegemônicos das épocas que atravessaram. Quero referir-me aqui especialmente a um valor grego representado pela frase enunciada na entrada principal do Oráculo de Delfos: “Conhece a ti mesmo”. Esta frase expressa o que eu considero uma virtude essencial, que aqui chamarei auto-consciência, ou autoconhecimento. Platão e Aristóteles, quando cunharam as Quatro Virtudes Cardinais, não precisavam ser redundantes naquelas circunstâncias.


Conhecer a si mesmo é fundamental em diversas tradições Orientais, mas deixou de ser consagrada na civilização Ocidental. O Taoísmo, por exemplo, define a Iluminação como “conhecer a si mesmo”, já o “Iluminismo” do Ocidente é um período que demonstra quase nenhuma consideração para com a auto-consciência, pelo contrário: instaurou a razão acima de todas as demais faculdades de nosso Ser, fragmentando-o, e projetando o sentido da existência em abstrações. Somente a partir do Renascimento, uma onda de pensadores, artistas e cientistas, em um esforço conjunto para a compreensão do que realmente significa Ser Humano, deram origem a novas bases de pensamento. Desde então esta virtude passou, gradualmente, a ser resgatada no Ocidente.

Este resgate ganhou um novo impulso no século XX, principalmente com a Revolução Cultural da década de 1960, que provocou rupturas profundas com alguns dogmas e barreiras culturais, criando espaço para uma nova liberdade de expressão. Alguns modelos mentais hegemônicos foram revistos, culturas orientais antigas viraramoda, novas abordagens científicas desconstruíram algumas das noções de realidade estabelecidas.

Este professor de filosofia participou ativamente desta transformação de consciência de 1960 e 1970, o que lhe permitiu conhecer outros valores e reformular o significado de sua própria experiência de vida. Sua história se segue:

“E então, enquanto ele me batia, eu não parava de pensar sobre quem ele estava falando. Claro, ele era meu pai! E ele colocou-se na frente de mim como se fosse dois: ele e uma função. Quando eu cresci, eu disse a ele: pai, aquela era uma forma de esquizofrenia ética. Você não é você e uma função, eu não sou um cidadão e um “eu”, um “eu” e um marido, ou “eu” e um chefe, “eu” e uma autoridade. Eu sou eu! “

Esse novo contexto o permitiu uma atitude mais compreensiva com sua própria condição humana, e consequentemente, com a de seu pai. Não somente ambos foram emancipados de vícios autoritários, como também este professor tornou-se uma grande referência na formação filosófica e mesmo na opinião pública das gerações seguintes[1].

É fácil perceber como o autoconhecimento não é bem-vindo em civilizações e culturas autoritárias. A partir de uma perspectiva política Hannah Arendt demonstrou, em seu paradigmático artigo Eichmann em Jerusalém, que uma pessoa que apenas segue as normas vigentes, que certo contexto determina a coisa certa a fazer, pode tornar-se medíocre, banal, a ponto de não ser capaz de reconhecer o mal que pratica. Arendt enfrentou reações duríssimas, mas abriu uma fissura profunda no senso comum hegemônico de seu tempo e na história do pensamento político: demonstrou a responsabilidade que todos nós temos para com o mundo em que vivemos, e a importância de cultivarmos o pensar autêntico de cada ser humano como base para que todos possam assumir sua responsabilidade.

Alguém poderia argumentar, com razão, que a auto-consciência não é possível, porque ninguém tem como saber se conhece realmente a si mesmo. Não temos critérios confiáveis ​​para fazermos auto-julgamento, como afirmou Nietzsche: “ninguém não é desconhecido para si mesmo”. De fato, a auto-consciência tem um caráter paradoxal: quando alguém pensar que a alcançou plenamente, certamente estará equivocado. Porém, se recordarmos Sócrates e seus dois princípios fundamentais – “conhecer a si mesmo é uma condição prévia para uma vida melhor” e “sei que nada sei”; a auto-consciência revela-se uma busca sem fim, mas fundamental: por acreditar que “Eu sei que eu não me conheço o suficiente”, assim evita-se cair no auto engano.

O exercício da auto-consciência é essencial em meu campo de atuação, como Profissional de Desenvolvimento. Quando realizo avaliações sobre os processos que conduzo, noto invariavelmente que os meus erros acontecem por ter ignorado meu próprio diálogo interior: haviam sinais indicando correção de rota, mas não percebi até o momento de parar para refletir sobre a experiência. Não é à toa que um dos princípios mais consolidados neste campo profissional é a atitude de “acessar nossa ignorância”: nosso não-saber assumido nos estimula a abrir as nossas percepções, evitando que fiquemos presos nas armadilhas dos nossos julgamentos, e nos auxilia a encontrarmos boas perguntas e percepções para balizar o desenvolvimento do grupo ou organização ao qual servimos.

A virtude da auto-consciência nos fortalece em qualquer outra prática. Consideremos o conceito de “benefícios internos” (internal goods) cunhado pelo filósofo Alasdair MacIntyre. Os benefícios internos são aqueles que uma prática oferece independente dos externos (fama, poder e dinheiro, entre outros) e que dificilmente podem ser mensurados, mas que agregam significado à nossa vida e ao nosso viver. MacIntyre ilustra este conceito com o exemplo de um menino que aprende a jogar xadrez, cujo professor oferece inicialmente benefícios externos (balas e outras recompensas) até que ele descubra por si próprio o valor intrínseco do jogo. O professor aposta que a experiência revelará ao menino os ganhos internos daquela prática.

Podemos observar a importância dos benefícios internos nas mais diversas áreas. Um exemplo é o parto natural: hoje em dia são várias as campanhas de sensibilização que demonstram como o ambiente – incluindo as pessoas e espaço físico – tem uma influência muito profunda em toda psique e corpo da mãe durante o processo de nascimento. Quando a mãe se sente mais segura e relaxada, seu corpo libera o chamado “hormônio do amor” (ocitocina), que provoca o aprofundamento do vínculo inicial entre ela e seu filho. Um benefício interno do parto domiciliar é o fortalecimento das relações entre mães e filhos.


Um dos princípios básicos que orienta os defensores do parto natural é precisamente “o respeito pelo valor do conhecimento interior”. Princípio este que pode ser observado não apenas na perspectiva da mãe, mas de todos os envolvidos, inclusive o médico: este irá ganhar menos dinheiro do que se optasse por aderir à onda de cesáreas sem justificativa, e precisa ficar à disposição do serviço em horários inconvenientes. Porém, poderá desenvolver outro significado para sua própria vida a partir de seu trabalho.

Uma prática social, quando realizada em favor do bem comum, certamente leva seu praticante a enfrentar escolhas éticas, nas quais os ganhos internos e externos não conseguirão ser conciliados. Nestas situações, para manter-se fiel ao seu propósito, deverá abrir mão de benefícios externos em favor dos internos – uma escolha que requer autoconhecimento: preferimos os benefícios internos de uma prática porque estamos conscientes de que serão mais significativos para nossas vidas. Mas o que nos permite nos dar conta desse significado?

É apenas a experiência de vida que revela estes benefícios, indica MacIntyre.

Mencionei anteriormente a corrente de filósofos que buscam as virtudes universais. Em um perspectiva que muitas vezes é denominada “Platônica”, buscam conceitos ideais que possam moldar a realidade às nossas aspirações superiores. Porém, o caminho inverso, reconhecendo a singularidade de cada experiência como primordial, talvez possa ser mais efetivo quando o assunto é integrar teoria à prática. Partindo da imanência ao invés da transcendência, da experiência ao invés da abstração, tudo revela-se mais intrinsecamente mesclado como parte de um todo, em constante transformação.

Nesta perspectiva as virtudes não seriam entidades ideais, individualizadas nem abstratas, mas forças vivas que se complementam umas às outras e atualizam-se em nossas práticas. A integridade não está separada da coragem e honestidade; a coragem por sua vez anda de mãos dadas com a bondade e vitalidade, a prudência se torna um contraponto ao risco da coragem estar contaminada com impulsos inconsequentes, e assim por diante.

Em relação à autoconsciência, a filosofia de origem platônica formou ainda a noção de que uma vida contemplativa, introspectiva, é o único caminho para o autoconhecimento. Esta perspectiva experiencial sobre os fenômenos da vida aponta que conheceremos a nós mesmos quando de fato tornarmo-nos receptivos ao que a vida revela – a nós e sobre nós. Cada experiência é uma fonte valiosa para o nosso desenvolvimento integral, se soubermos aproveitá-las como espelhos de nosso Ser.

Recentemente, diante de uma situação de impasse que se arrastava por anos em meu ativismo político, decidi investigar a fundo o que acontecia comigo mesmo, na prática. Com apoio de parceiros, este processo revelou como o grande empecilho naquela situação eram os meus próprios medos (e não os defeitos dos outros, como estes mesmos medos me faziam crer). Minhas atitudes eram contraditórias e misturavam vícios às virtudes que eu pregava, tudo isso porque eu tinha medo de expressar o que eu realmente sentia e pensava. Faltava-me abertura e franqueza para com as outras pessoas.

Conforme fui me dando conta destas sombras, naturalmente as atitudes foram mudando. Aprendi a respirar fundo e buscar coragem de posicionar-me de modo mais verdadeiro, e cada passo dado neste sentido passou a nutrir não apenas meu ativismo, mas o próprio significado de minha existência. Pude encontrar um benefício interno: o florescer de um entusiasmo que não se perde facilmente com a adversidade das circunstâncias, e que orienta a uma atuação mais profunda e equilibrada na qual minha própria realização pessoal se concilia com a ação política.

Esta transformação serviu como mote para a ideia central deste ensaio: que o autoconhecimento, dentro do nosso balaio de virtudes, possui o papel singular de nos colocar diante de nossos vícios, ao mesmo tempo cria e sustenta espaços internos para agirmos com mais integridade. O exercício da auto-consciência cultiva nossas virtudes como atitudes práticas, para que assim possamos seguir no caminho de “Ser a mudança que desejamos ver no mundo”, ainda que esta possa ser uma busca impossível.

selfawareness

[1] Refiro-me aqui ao Prof. Mario Sergio Cortella.

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