Profissionalismo e a capacidade de desafiar: práticas ancestrais e novas transformações.

É possível praticar um profissionalismo que consiga desafiar, e não apenas aquiescer aos poderes hegemônicos?

Este artigo é uma adaptação em português de uma tarefa da disciplina “Professionalismo” do curso de mestrado “Prática Social Reflexiva“. A versão original em breve será publicada aqui.

A palavra profissão vem do latim “professio”, que significa uma declaração pública de fé, um voto de dedicação de uma vida ao trabalho religioso. Mais tarde, o significado da palavra ampliou e passou a designar algumas ocupações que exigiam capacidades específicas e certificadas, tais como médicos e advogados. Em sua essência, o significado foi mantido: uma escolha de vida a serviço das necessidades dos outros, cuja recompensa maior está na própria realização pessoal que a realização do serviço oferece (ou os ganhos internos de uma prática, como diria o filósofo MacIntyre), bem como um sentido de valor e estima na comunidade e uma certa quantidade de bens materiais (ou os ganhos externos de uma prática).

Ao longo do tempo, os tipos de profissão mudaram e se multiplicaram, e as suas circunstâncias institucionais foram transformadas. A divisão de trabalho se tornou cada vez mais especializada, processo intensificou com a Revolução Industrial, quando o paradigma da “racionalidade técnica” das mentes engenhosas assumiu o comando da vida econômica. Grosso modo, o trabalho passou a ser uma forma de contrato baseada apenas em recompensa financeira, e os trabalhadores perderam a perspectiva de sua prática como um todo, bem como a sua ligação direta com as necessidades humanas às quais respondiam (alienação do trabalho, como Karl Marx denominou). Uma boa parte do significado enobrecedor do trabalho era perdida.

Chaplin

Para dar conta do consequente crescimento acelerado da economia e dos adensamentos populacionais, a racionalidade técnica da modernidade também pautou um tipo de desenvolvimento institucional: era preciso formar profissionais capazes de lidar com esse crescimento, e para isso foram estabelecidas diversos parâmetros para formação, leis de licenciamento, sindicatos profissionais e, mais tarde, os “códigos de ética”.

Todas estas instituições profissionais foram desenhadas também buscando honrar as origens do profissionalismo, e incorporaram a busca do atendimento à reais necessidades humanas em suas declarações e princípios de missão. No entanto, em muitos aspectos, o aprofundamento da modernidade empurrou estas instituições, na prática, para uma contradição fundamental: por ser a alienação do trabalho um padrão altamente rentável, e os grupos hegemônicos rapidamente encontraram os meios para submeter instituições profissionais aos seus próprios interesses.

O resultado foi uma distância real das práticas reais promovidas por essas instituições deste propósito fundamental. Por exemplo, as escolas de medicina foram progressivamente patrocinadas pela indústria farmacêutica, estabelecendo profundas ligações com a indústria de agrotóxicos, que sua vez produzia as doenças mais perversas de nossos tempos atuais. Os melhores advogados tornaram-se agentes das classes mais ricas. E os partidos políticos tornaram-se cada vez mais ferramentas de interesses econômicos ocultos.

Advogados servindo injustiça e médicos melhorando a propagação de doenças: a prática do profissionalismo ficou cada vez mais distante do seu significado original, e tornou-se em grande parte uma maneira para garantir a manutenção de interesses particulares, inclusive dos próprios profissionais. A profissão moderna se converteu em uma aquisição mercantilizada , e em nome de dinâmica de eficiência, escala e de mercado, a qualidade autoral de um profissional passou a ser submetida aos poderes de controle de autoridade, incluindo no interior das instituições profissionais.

Outro efeito da racionalidade técnica dos tempos modernos foi a negação da subjetividade: a tradição de confiar nos conhecimentos práticos dos profissionais foi substituída pelas “verdades científicas”. Um médico, por exemplo, seria encorajado a não tocar e cheirar um paciente. A ciência foi alçada a um lugar intocável como instância superior de legitimação das práticas econômicas e sociais – como se os cientistas fossem pessoas completamente imparciais, não influenciadas (ou controladas) por dinâmicas de poder de interesses.

Ainda hoje jovens profissionais que desejam encontrar um caminho virtuoso para sua vocação são domesticados por este jogo. De muitas maneiras, a escolha profissão acaba por configurar como uma camisa de força, e os jovens profissionais parecem não ter outro caminho a não ser servir ao status quo, e abrem mão de seus votos para se preocupar om sua própria carreira e reputação, em nome da estabilidade. O custo de traição aos interesses que oferecem os ganhos mais imediatos é alto demais, e poucos são os exemplos atuais visíveis que tragam um contraponto à esta tendência.

Dentro deste contexto, chegamos à nossa questão fundamental: é possível praticar um profissionalismo que consiga desafiar, e não apenas aquiescer aos poderes hegemônicos?

Se houver um profissionalismo que os desafia, isso significaria contrapor os alicerces dessas estruturas hegemônicas em nome do sentido original da profissão: resgatar o atendimento às necessidades humanas reais, colocando estas necessidades em um patamar mais relevantes do que o lucro, a fama e o poder.

Felizmente esta atitude tem sido uma parte viva do desenvolvimento da história humana, com exemplos que deixam inspirações para todas as próximas gerações. Esta tensão entre as necessidades reais e os vícios da civilização moderna foram abordados de muitas maneiras diferentes: Charles Chaplin e seu filme “Tempos Modernos” é reconhecido como o mais profundo crítico do “American Way of Life”; a Prática profissional de Gandhi como um advogado colocou todo um império em xeque; e Karl Marx em seus trabalhos acadêmicos gerou uma nova tradição de resistência e emancipação dos trabalhadores.

Para além destas grandes expressões simbólicas de uma espécie de prática profissional que desafiou o status quo com grande impacto, há muitos exemplos que são menos visíveis à sociedade como um todo. No campo da medicina, por exemplo, podemos ver Terapia de Gerson para Tratamento do Câncer, a tradição homeopática de Samuel Hahnemann, e o movimento de médicos que defendem o resgate do Parto Natural.

Estes exemplos ilustram bem o nosso sentido original de uma profissão, que busco espelhar em meu próprio singelo ambiente de atuação profissional na esfera política: desde muito jovem conquistei uma posição de destaque de reconhecimento profissional como facilitador e consultor em práticas participativas. No entanto, ao perceber o uso que era feito com os bons resultados deste trabalho, senti uma profunda insatisfação: eu discordava do uso político os chefes de meus clientes (o governo no poder). E senti que, se continuasse oferecendo minhas competências para aqueles usos, eu estava traindo meu próprio chamado interior: o de atuar em favor da emancipação humana por meio da participação na Democracia. Então eu decidi dar um passo atrás daquele contexto, e me envolver no advento de uma nova força política no país.

Este novo campo político prosperou e em pouco tempo formou um movimento massivo de transformação na política. Nosso propósito original era trazer inovações para a política, reafirmando valores esquecidos e defender causas urgentes que eram negadas pela agenda política hegemômica. Nosso propósito não era simplesmente tomar o poder, mas em função da grande força política das lideranças que se juntaram a este novo campo, passamos a ter muita força política uma estratégia de boicote intensivo foi por grupos que estão no poder e não querem perder a hegemonia. Somos acusados ​​de traidores, nossas lideranças desqualificadas e calunieadas, e mesmo o Supremo Tribunal Federal foi implicado para sustentar uma injusta inviabilização de um partido político.

O que me impressiona é que, assim como nosso grupo político, a maioria desses profissionais não desafiam o sistema simplesmente por desafiar. O que nos impele a agir é dar seguimento às convicções íntimas do que achamos correto que seja feito, e para isso é preciso encontrar caminhos diferentes para atender às necessidades humanas que estão sendo ignoradas ou equivocadamente cuidadas por nossos próprio campos profissionais. A escolha fundamental é por não trairmos a nós mesmos. Mas as circunstâncias parecem nos obrigar a tomar decisões que nos colocam em posições nas quais aqueles que sequer desejávamos ter como nossos adversários, vejam-nos como ameaças, como traidores, e como competidores.

Gandhi

Conflitos, boicotes e até mesmo assassinatos mostram quão arriscado pode ser a tomar uma posição desafiadora em nome de nossos votos de vida profissional. Assumir este lugar se torna especialmente difícil em um mundo contemporâneo complexo, onde os parâmetros da mentalidade tecnocrática já tornaram-se tão profundamente arraigados em nosso modo de pensar, em nossas crenças subconscientes

Percebo que isto é verdade quando os brasileiros aceitam tranquilamente a recente lei que obriga as escolas a reduzir a idade de alfabetização de uma criança. Mesmo que profissionais respeitados do campo da educação afirmem que as crianças precisam de um tempo mínimo para desenvolver habilidades emocionais e físicas antes de aprender a ler, esta visão foi praticamente ignorada. Consolida-se uma pedagogia que é mais favorável ao crescimento econômico puro, que nega o desenvolvimento integral do ser humano. Este e tantos outros exemplos revelam como a humanidade, acreditando que esse tipo de pensamento sobre a vida e sobre a humanidade é “normal”, é moldada em uma condição de domesticação que nos limita encontrar nossa plenitude.

Aqui é onde uma profissão faz a diferença: apenas o profissional aplicado pode ser plenamente capaz de compreender a complexidade do campo específico de sua prática, compreender com as forças invisíveis por baixo da realidade imediata visível, e perceber como as reais necessidades podem ser melhor abordados. Trata-se do médico que vê a verdadeira causa de uma doença; o advogado que vê que o conflito pode ser resolvido sem ir a tribunal; o consultor organizacional que vê as disputas reais que buscam ser acobertadas por meio de um planejamento estratégico; o professor que acompanha desenvolvimento íntimo de cada criança; e o político que lê as aspirações de um povo e procura os meios autênticos para encarnar seu discurso na prática real do exercício do poder.

Em todos os casos, podemos facilmente ser enganados por muitas teorias científicas, em suas supostas neutralidades. As estruturas hegemônicas não contam com a sabedoria que só pode surgir a partir da práxis, da experiência direta (ou Fronese, segundo Aristóteles). Profissionais são treinados para negar a subjetividade, evitar as partes mais densas e incertas da realidade, e acabam empurrados por caminhos em que a sua capacidade fronética é negada (as universidades são apenas cobrem as faculdades da techné eepisteme – tecnologia e epistemologia). Nas instituições de ensino, assim como na escola, aprendem a temer as conseqüências do comportamento diferente do que é esperado, e a encantar-se por teorias abstratas que “resolvem” todos os problemas.

Um profissional comprometido com sua vocação fica sujeito a chegar num ponto de sua vida que deverá fazer uma escolha fundamental: ou trair si mesmo e seus votos fundamentais, ou trair alguns dos padrões e expectativas que regem o próprio contexto que lhe propiciou desenvolver-se como um profissional, abrindo mão de poder, dinheiro ou status. Eu, por exemplo, qualifiquei-me profissionalmente dentro de uma tradição de visão democrática relacionada a um campo de esquerda, o que levou-me a ser um colaborador proeminente do governo do meu país. Agora sou visto como uma ameaça por muitos dos meus parceiros anteriores, e isso me fez perder alguns dos meus melhores clientes. No entanto, nada se compara aos ganhos internos desta escolha, tal como o profundo sentimento de gratidão pelas atitudes corajosas que tomei, o aprendizado que esta nova experiência tem oferecido, e os laços humanos que passei a cultivar.

Mas manter-se fiel a uma atitude que desafia os poderes hegemômicos não é tarefa simples, pois as formas de sermos domesticados são cada vez mais eficazes. Hoje em dia, optar pela fidelidade radical ao voto profissional requer muito mais do que a competência específica daquela prática. É preciso saber lidar com as formas incrivelmente dinâmicas e paradoxais em que instituições se desenvolvem: uma pessoa não pode ser apenas um professor, ou um médico, ou um advogado, ou um político para uma postura efetiva em prol de seu chamado interior. É preciso aprender engajar-se com o quadro mais amplo, construir a legitimidade da sua vocação, formando relações sociais que ajudem a sustentar suas convicções fundamentais na prática. Devemos ser capazes de não perder a credibilidade do nosso campo profissional e ao mesmo tempo de trair alguns de nossos padrões mais equivocados. Temos de manter o fio de nossos propósitos fundamentais, sem negar o mundo como ele é. E nós temos que compreender as polaridades de um mundo cheio de contradições, e ao mesmo tempo sermos humildes e auto-observadores o suficiente para perceber estas contradições dentro de nós mesmos, cientes de que nossa própria prática é objeto constante de transformação em nossa relação com o mundo.

Nossas responsabilidades tendem a ser maiores quando o significado original de uma profissão é plenamente incorporado em nossas práticas. E quanto maior a responsabilidade, maior é o potencial para um profissional desafiar traços críticos de seu contexto, e por isso tendem a ser maiores os riscos que corre. Estes são os efeitos da emancipação humana, a conquista da condição de ser livre: verdadeiro profissionalismo em última análise, serve para novos tipos de poder. E novos tipos de poder inevitavelmente são um desafio para os poderes hegemônicos.

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2 responses to “Profissionalismo e a capacidade de desafiar: práticas ancestrais e novas transformações.

  1. Estimado Eduardo: Identificação completa. O que li neste texto é simplesmente o que sinto e penso e alguém (vc) conseguiu, transcrever e escrever. Vc Sou Eu. E agora? Agora uma vez te encontrado, quero conhecê-lo e unificar nossas intenções, definir objetivos, táticas e ações conjuntas. Abraço do Salomão Bernstein / “Novo Girasol na Escola da Vida” .

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