Sonhar e Pertencer: retrato de uma experiência de vida na Serrinha do Paranoá.

Por Eduardo Rombauer, abril de 2014


DonaSila

“Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça. Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino.”

Clarice Lispector – Pertencer


Sonhos às vezes surgem e se realizam de maneiras que sequer podíamos imaginar. Quando eu tinha 19 anos um sonho estranho saiu pela minha boca e um professor italiano notório, Domenico de Masi, perguntou:

“Como será a sua vida daqui a 20 anos?”.

De Masi queria compreender os valores e sonhos da nova geração brasileira, e por isso convidou alguns jovens ativistas para uma conversa. Pediu para respondermos à sua pergunta afirmativamente – como se tivéssemos o poder de profetizar nossas próprias vidas. Gostei idéia e prontamente respondi:

“Eu vou viver numa casa com a natureza, numa comunidade, e de preferência perto de um rio”.

Aquele sonho era, para mim, mais atraente do que continuar a viver em São Paulo, onde vivia desde a infância. Parecia algo óbvio de se sonhar.

Mas todos os demais na roda responderam sonhos que prosseguiam um em uma cidade grande.

“Um outro mundo é possível”. Este era uma das frases que eu mais repetia àquela época, em que o ativismo me fazia viajar pelo mundo e experimentar realidades sociais completamente distintas. Começava a me dar conta de quão danoso era para minha saúde viver entre muros, engarrafamento e tantos tipos de poluição da megalópole. Não me sentia pertencente àquele contexto, e expressar o sonho em naquela ocasião revigorou o desejo de viver em outra realidade.

Mas onde eu mais gostava de ir era Brasília, que conheci em suas diversas facetas: o centro e as periferias, as cachoeiras próximas, largos parques com árvores belíssimas e vastos espaços, árvores frutíferas e jardins entre o edifícios, o belo lago Paranoá, as áreas rurais, além é claro da arquitetura. O céu aberto me encantava: podia vê-lo em qualquer canto, e me surpreendia com um pôr-do-sol mais belo que outro. Ouvia o silêncio nas casas das pessoas, e me admirava a qualidade de vida que muitos ali viviam.

Situada no Planalto Central Brasileiro, onde o Cerrado sobrevive secas anuais com suas árvores pequenas e retorcidas e uma enorme variedade de flores e frutas de sabores intensos, Brasília está próxima às nascentes que formam as cabeceiras dos três principais rios bacias do país. Fundada em 1960, tornou-se referência mundial em arquitetura e urbanismo por seu plano diretor e edifícios com traços típicos de seu tempo: a estética modernista combinada com ascensão da indústria automobilística.

No Plano Piloto as áreas de paisagem urbana e da natureza se misturam, mas que privilegia os carros em detrimento do transporte público. O planejamento excessivamente modernista de algumas partes da cidade deixou outras à mercê, e uma série de processos de urbanização irregulares tomaram conta nos arredores da cidade. O resultado foi uma cidade fragmentada, em que as chamadas “cidades satélites” cresceram de forma descontrolada, reproduzindo intensa desigualdade social e sem algum sistema de transporte minimamente adequado.

Desde a primeira visita, sentia que Brasília se tornaria minha cidade natal. Mas em 2004 dois amigos me contaram sobre uma casa na área rural no norte da cidade. “É a casa perfeita para você, por que você não se muda logo para Brasília e vai viver lá?”, Disse uma, “É a mais bela vista da nossa comunidade”, disse o outro. Quando vi a grande área verde do Cerrado, a bela vista de um vale e da cidade e da praça dos três poderes no horizonte, e o riacho com uma bonita cachoeira logo abaixo do morro, senti que havia encontrado o lugar que sonhava.

A casa ficava no Sítio Beija-Flor, onde outras 9 famílias viviam às margens Córrego do Urubu, onde urubus são atraídos pelas correntes de ar ascendentes que acariciam a encosta do morro, que permitia a bela vista. Quase não haviam cercas dividindo as casas, e duas comunidades ecológicas ficavam ao outro lado do rio. Em toda a região, as plantas típicas do Cerrado coexistiam com flora e fauna exóticas, herdadas pelos pastos de fazendas anteriores e trazidos pelos habitantes ao longo de anos de colonização.

“Sim, este realmente é o lugar que quero viver – tem natureza, vida comunitária e política, tudo junto.” Imediatamente aluguei a casa, e três meses depois lá estava morando, e mais alguns meses depois adquiri a casa por um preço incrivelmente baixo.

Subitamente encontrei-me imerso numa vida cujo cenário era completamente distinto daquela urbanidade onde cada um, apesar de estar no meio da multidão, tinha seu próprio espaço definido. Aqui, os limites eram menos claros e mais permeáveis: poucos muros, sem asfalto, e eu vivia em constante interação com a dinâmica de vida das plantas, dos pássaros, coelhos e micos, os cães do vizinho. Às vezes era surpreendido por aranhas e escorpiões, e frequentemente perturbado pelos gambás bagunceiros no telhado. Algumas madrugadas era acordado por barulhos estranhos, como um cavalo na janela, ou assustado com meu gato lutando contra uma cobra na cozinha.

Era em ecossistema muito diferente para se viver, principalmente no que dizia respeito à interação com as pessoas ao redor: as frequentes caronas, visitas espontâneas, as refeições com vizinhos, tornaram-se parte de minha rotina. Fui acolhido praticamente como parte de uma das famílias da comunidade: juntos cuidávamos do jardim, cozinhávamos, compartilhávamos os carros, festejávamos a vida. Sempre recebiam amigos e outros vizinhos, e foi neste ambiente que iniciei meu envolvimento com a vida social local.

Também conheci muitas pessoas na cachoeira, o principal ponto de encontro das pessoas que vivem no vale e de visitantes que também gostavam de natureza. Em dias ensolarados, o contraste de culturas que usufriam da cachoeira se intensificava: enquanto alguns preferiam o silêncio, ouvir o som do rio e uma certa introspecção, outros traziam seus sistemas de som, bebidas e churrasco; enquanto alguns colaboravam para manter o meio ambiente limpo e faziam pequenos gestos para evitar assoreamento do rio, outros ateavam fogo durante as secas ou largavam seu lixo para trás.

Notícias desencontradas revelavam que Vale do Urubu passava por uma confusa transição de uma região rural para uma zona de “expansão urbana”. Estas indefinições nos deixavam sem parâmetros para obter alguns dos serviços públicos mais essenciais, tais como água, coleta de lixo, esgoto, manutenção de estradas e transporte público. Nem mesmo correspondências recebíamos em casa: apenas o serviço de eletricidade, e ainda assim com falhas frequentes. Aprendi, de um jeito drástico, o quão vulnerável esta ausência de serviços nos deixava: na minha primeira estação de seca, fui surpreendido por uma onda de fogo soprado pelo mesmo vento que sobe o morro e eleva os Urubus. As chamas invadiram o jardim, e somente horas depois, um grupo de pessoas, muitos dos quais desconhecidos, terminavam de extinguir o fogo com ferramentas e técnicas improvisadas.

A ação coletiva era a única resposta para a falta de diversos serviços públicos: canalização de águas das chuvas, arrumação de estradas, aceiros, poços artesianos, etc – tudo era feito pelos moradores da região. Para alguns de nós, este estilo de vida rústico era uma preferência: significava um senso de aventura, de vitalidade, de ser alternativo. Eu não era tão radical como meu vizinho Murilo que se opunha a arrumar as estradas esburacada, mas admirava sua opção por resistir ao estilo de vida moderno, onde tudo é fácil e cada um se acomoda em seu canto. Mas esta ação coletiva exigia dedicação constante, o que também gerava muitos desgastes, e muitas coisas ficavam por fazer.

Com o passar do tempo percebi que havia um grupo mais ativo que mobilizava as principais ações de proteção dos bens comuns naturais, e também as atividades culturais. O movimento “Salve o Urubu” catalisava uma boa parte destas ações, com iniciativas como o Festival da Primavera, anualmente na cachoeira, a organização de uma brigada de incêndio e o plantio coletivo, e a proteção das margens e nascentes do córrego. Casei-me com Elisa, muito ativa em ações de educação ambiental, que rapidamente abraçou este movimento. Pouco depois um mutirão para a construção de um viveiro comunitário foi montado em nosso jardim, com a finalidade de abastecer as ações de reflorestamento e recuperação de nascentes locais.

Ano passado esse grupo também mobilizou centenas de pessoas a doar recursos, habilidades e materiais para construir uma nova ponte para Dona Sila, uma das antigas moradoras da região, e sua família, que vivem num bosque na parte mais alta do rio. A velha pinguela era muito perigosa, e a família não podia arcar com os custos de uma nova ponte. A comunidade mobilizou-se para construir uma nova ponte, o que beneficiou também aos ciclistas que passeavam pela região.

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A ponte para a casa de Dona Sila antes e depois.

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Mutirão do viveiro, a preparação de mudas e o plantio às margens do córrego.

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Plantio de mudas ao lado do eco-ponto de coleta seletiva, que precisou ser desfeito em virtude do uso inadequado por uma parcela dos habitantes.

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Córrego assoreado, mutirão de plantio às márgens do Urubu, e limpeza do assoreamento na cachoeira.

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Festival da Primavera.

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A brigada de incêndio comunitária em treinamento.

Percebi que, dentre os muitos benefícios que estas ações comunitárias geravam, o mais importante eram as boas amizades: fazer coisas juntos fortaleci nossos laços. Uma coisa levava a outra: acabávamos convidando uns aos outros para refeições, grupos de estudo, celebrações, fogueiras em noites de lua, meditações em grupo e jardinagem comunitária.

E conhecendo melhor estes amigos comunitários notei alguns traços comuns: a maioria de nós não nasceu em Brasília e se mudou para cá em busca outra qualidade de vida, em harmonia com a natureza e as pessoas, onde a vida social natural e desenvolvimento espiritual acontecem de alguma forma integrada. Todos nós encontramos na região do urubu uma incrível oportunidade para realizar este mesmo sonho de um viver mais integral.

No entanto a maioria dos habitantes não participavam de qualquer atividade, e alguns iriam apenas ocasionalmente. Muitas vezes eu vi moradores jogando lixo à beira da estrada, ou escutei vizinhos criticando os outros que estavam fazendo alguma coisa sem propor outra solução viável. A maior parte das atividades em comunidade eram feitas praticamente pelas mesmas pessoas, alguns muito dedicados e outros que (como eu) cooperavam com tarefas mais específicas quando tinham a disponibilidade.

Senti essas forças contrárias à vida comunitária principalmente nas relações fisicamente mais próximas, entre os moradores do Sítio Beija-Flor. Conflitos interpessoais que se arrastavam por anos, causando mal-entendidos em nossas reuniões de condomínio, afastavam algumas pessoas de assumirem alguma responsabilidade pelo bem comuns. Alguns membros ficavam anos sem pagar as mensalidades, sem sequer achar que deveriam explicar suas razões. Ao longo dos anos, várias famílias construíram cercas para além dos limites acordados. Algumas pessoas pareciam incapazes de uma atitude civilizada, e aqueles que aceitavam assumir as responsabilidades formais do condomínio muitas vezes ficava exausto e desistiam da posição. Eu mesmo cheguei a ser um síndico frustrado, que não encontrou tempo e paciência que precisava para desatar tantos nós.

Esta contradição, tanto no sítio como no entorno, não fazia sentido para mim: como as pessoas podem optar por uma vida próxima à natureza ou mesmo comunidade e tornar-se tão irresponsável para com esse lugar, com seus próximos e até mesmo com suas próprias vidas? Eu tentava ajudar a resolver estes problemas, mas aumentava uma sensação de estar perdendo tempo. Elisa também foi perdendo o seu entusiasmo de viver no sítio, e meu velho sonho parecia cada vez mais com um pesadelo. A ideia de mudar para outro lugar passou a fazer parte da agenda da minha família.

As atitudes individualistas prejudicavam toda uma dinâmica social, conflitos e divergências nos faziam empacar, e os nossos sonhos compartilhados eram minados. Era evidente como a maioria de nós não tinha suficiente educação e capacidades para assumir a responsabilidades que a situação exigia, e por outro lado instituições públicas locais também não ajudavam muito: velhas promessas de regularização nunca eram realizadas, e informações contraditórias vindo de vários lugares a respeito de nossa situação fundiária deixavam todos os habitantes bastante confusos e inseguros. Por um breve período o Marcos se tornou administrador regional e fez um excelente trabalho e reacendeu esperanças. Mas sua súbita demissão em função das barganhas políticas nos deu um banho de água fria.

Nem sempre é fácil tornar-se um adulto e perceber como este mundo realmente é. Já vivia aqui há 7 anos, passava dos 30, e ainda me considerava um idealista. Mas isto tudo me impactava, e uma perspectiva cínica foi me condicionando um outro olhar sobre toda esta situação social: comecei a ver cada vez mais a região apenas como terra pública irregular em que os habitante, como eu, as haviam adquirido por um preço tão baixo justamente por não haver formalização jurídica. Me parecia sermos todos parte de um jogo oportunista, perpetuando a situação irregular, usando a terra até que o governo decidisse formalizá-la, e então vende-la por um preço melhor. O que me diferenciava de um grileiro ou especulador imobiliário? Por que perder tempo e energia nesta condição?

Já estava perdendo os argumentos para convencer a mim mesmo a permanecer vivendo neste lugar, quando, em 22 de março de 2013 – o Dia das Águas – fui a uma exposição fotográfica de projetos ambientais que visam a proteger as águas da região. Fotos, mapas, maquetes e gráficos revelavam as ameaças aos córregos da região, e como uma rede de pessoas se dedicavam a cuidar de nossas águas. E ali estavam várias pessoas ativas nos movimentos sociais e ambientais da cidade.

A exposição dava à região um nome que eu já tinha ouvido, mas que não tinha me dado conta do significado: “Serrinha do Paranoá”. Disseram-me que aquele era o pontapé inicial para uma mobilização ampla da comunidade de toda a região para reagir contra o projeto “Taquari”, que apontava para expansão urbana descontrolada que impactaria drasticamente na região “de Serrinha”, principalmente em seus rios. Mobilizado pela ideia, decidi participar da próxima reunião.

Serrinha13 Vista aérea da região, a bacia do Urubu, e mapa dos córregos da região da Serrinha do Paranoá.

A percepção de uma identidade comum para esta região verde ao longo do lago era uma novidade para mim. Já tinha ido a alguns sítios da região e era fácil reconhecer alguns padrões semelhantes entre todos vales e córregos: a combinação de Cerrado com a fauna e flora exóticas; sítios de tamanhos diferentes, que tendem a tornar-se mais largas nas áreas mais elevadas; algumas pessoas que viviam num estilo de vida mais comunitária. Conhecia um centro de educação ambiental, um SPA natural, alguns produtores rurais e espaços para eventos. Em todos os cantos, a diversidade social contrastante combinado com a falta de infra-estrutura (estradas esburacadas, sem calçadas, etc), e manchas cinzas de urbanização descontrolada ao redor das zonas verdes, desafiando todos os tipos de leis ambientais. Mas ainda não havia passado pela minha mente uma imagem que oferecesse “um todo” à todos aqueles pedaços de terra.

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foto: Viviane Junqueira

Os organizadores da reunião começaram apresentando o conceito de Serrinha com mais detalhes. Fiquei surpreso: havia um grupo envolvido, organizado, politicamente influente, e com uma visão bastante audaciosa para o desenvolvimento sustentável da região. Muito além de uma agenda de atividades comunitárias, pretendiam interferir estruturalmente no processo de desenvolvimento social e econômico no conjunto da região. O próximo passo seria estratégico: organizar uma audiência pública dali a três meses. Continuei me envolver com esse processo, e uma curiosidade com esta situação social todo floresceu em mim: Qual é a história por trás de toda esta comunidade na área? Por que existe em Brasília um contraste entre uma cidade tão bem-planejada e uma área tão irregular rural ao redor?

Parecia absurdo não compreender o contexto mais amplo do local onde eu escolhi viver. Decidi então entrevistar alguns dos habitantes mais antigos, bem como as lideranças ativas a mais tempo nos movimentos sociais locais. Talvez – pensei – escutando-os eu poderia contribuir com o desenvolvimento da identidade da Serrinha do Paranoá.

Nestas conversas aprendi que, antes da existência de Brasília, a região de Serrinha fazia parte de uma das grandes fazendas de gado, naquela região remota do país. Com o advento de Brasília, pequenos agricultores pobres vieram do Nordeste e Centro-Oeste, após receberem ofertas de terras próximas aos rios com a perspectiva de produção de alimentos para atender as necessidades dos futuros habitantes da cidade. Mas quando chegaram à região se depararam com o fato de que essas terras não eram apropriadas para o plantio, e logo foram trabalhar em obras e outros serviços básicos de manutenção da cidade.

A rápida expansão de Brasília afetou diretamente a região da Serrinha: uma segunda onda de habitantes surgiu nos anos 70 e 80, agora em sua maioria de classe média, muitos dos quais produtores rurais dos estados do sul, que por sua vez tinham melhores condições para investir em energia elétrica e melhoria de estradas. Com habilidades sociais, criaram uma associação de produtores rurais, e esta se tornou a principal organização social na região. Ao mesmo tempo, outras terras eram ocupadas e vendidas por grileiros, apoiados por uma série de governos corruptos em troca de favores políticos, e que contratavam pistoleiros para manter suas invasões quando ameaçadas. Este processo de apropriação de terras levou ao fracionamento ilegal de terras e altos impactos ambientais, bem como os conflitos intensos e disputas sobre usos da terra. Já nos anos 80 e 90, uma terceira onda trouxe principalmente de trabalhadores da cidade que queriam viver perto da natureza. Ao longo destas três décadas, a população aumentou de mil para seis mil habitantes, e a maioria dos animais endógenos de maior porte – como os lobos e veados – desapareceram.

As entrevistas me fizeram perceber como éramos herdeiros de uma história de resistência da vida contra a ganância humana: toda esta terra teria sido drasticamente impactada e seus rios destruídos se esses agricultores não tivessem combativamente unido os seus esforços. Esta resistência encontrou um apoio fundamental em 1998, quando um o governo não-corrupto, responsável e democrático foi eleito e estabeleceu alguns arranjos institucionais para desmantelar os processos ilegais de apropriação de terras, reforçados por uma série de políticas nacionais de fortalecimento das regras ambientais e instâncias participativas. Esta mudança institucional permitiu que líderes de diversas áreas rurais de Brasília participassem de novos espaços de influência política, desenvolvessem uma capacidade ainda maior de articulação social.

Estas resistências estancaram uma boa parte da destruição que avançava sobre o cerrado. Mas a indústria de urbanização continuou crescendo rápido em outras regiões da cidade e entorno, seus proprietários ganharam fortunas e ainda aprofundaram seu poder político. A indústria de grilagem de terras e construções constituíram uma máfia poderosa, que transformou a nossa câmara local como um dos piores exemplos de corrupção no país. E estas empresas nunca perderam de vista a perspectiva de transformar a Serrinha (que chamam Taquari) em uma área de alta densidade de ocupação humana.

Nos ano anos 90 surgiu ainda uma nova luz para lideranças rurais locais, reforçada com a terceira onda de habitantes: o movimento ambientalista, que ofereceu novos elementos para legitimar a proteção da fauna e flora locais. Além da pauta social e política, o movimento ambientalista gerou uma mudança de paradigma: até este ponto, a perspectiva de líder local sobre a terra era restrito sobre proteção das áreas ocupadas, e o ambientalismo incorporava todos os espaços e relações como âmbito de atuação. Foi deste olhar integrado que um pioneiro do ambientalismo local e integrante de terceira onda de habitantes, o pesquisador geográfico Paulo Bertram, cunhou esta nova proposta de batismo para a região.


A “Serrinha do Paranoá” propunha incluir na perspectiva de organização social local também a proteção das áreas não ocupadas (como nascentes e córregos ) e integrar múltiplas dimensões, como cultural, econômica e histórica, para o seu desenvolvimento. Bertran veio a falecer em 2005, e alguns ambientalistas perseveraram com esta idéia. E, oito anos depois de sua morte, deflagravam naquele evento das Águas a primeira articulação que consolidava publicamente o conceito de Bertran.

Com o apoio significativo de um deputado ambientalista na câmara local, Joe Valle, a Audiência Pública reuniu 500 pessoas de todas as bacias da região.

Serrinha15A audiência começou com a apresentação detalhada dos planos oficiais do “Taquari”, que visava a crescer população regional de 6 mil para 100 mil habitantes, atravessando a região ao meio por uma estrada que ligaria a cidade com outra área de urbanização até o norte de Serrinha. Especialistas em planejamento urbano demonstraram como o plano tinha sido silenciosamente concebido sob um processo de falsificação de consultas públicas, desconsiderando a questão da proteção da sua água e burlando as instâncias de participação cidadã previstas em lei.

Nenhum representante da indústria de urbanização veio à audiência defender seu ponto de vista, e, em resposta, uma consenso foi publicamente firmado pelos participantes: a de que Serrinha deveria tornar-se uma referência para o Serrinha17desenvolvimento sustentável do Estado, mantendo a sua baixa densidade populacional, com uso adequado do solo e dos recursos naturais, o ecoturismo, apoio à produção agro-ecológica e utilização de energias limpas.

Serrinha16 O sonho de Bertran nunca havia estado tão vivo. Mas dias depois recebemos a demonstração de força de nossos oponentes: a revista Veja, principal veículo do pensamento conservador local, publicou um artigo sobre o projeto Taquari e todos os “benefícios” que traria a cidade.

Sem mencionar as conseqüências ambientais, nem a resistência da comunidade ou a audiência pública recém-realizada, a matéria configurava um artigo de pura propaganda que “vendia” o plano do Taquari como se o projeto fosse uma escolha legítima construída em um diálogo aberto e participativo com a sociedade. Evidenciava-se o grau de sofisticação da nova espécie de gângsteres que substituía o velho modelo de grilagem com pistoleiros.

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Pessoas podem ser tão diferentes como os urubus são diferentes dos beija-flores. Cada um elege diferentes necessidades prioritárias e vive sua vida de acordo com as mesmas, o que nos leva a considerar nossos bens comuns de maneiras radicalmente distintas.

Mas, ao contrário das aves, ficava evidente que nem toda a esta diversidade poderia ser contemplada na ocupação Serrinha do Paranoá. A audiência indicava um ponto de ruptura: já não havia mais dúvidas sobre o que realmente estava acontecendo no que diz respeito ao território em que habitamos. Estávamos mais conscientes de que Serrinha era um verdadeiro palco de uma disputa real de interesses contraditórios. Assim como na década de 90 os líderes rurais encontraram os espaços de participação, a audiência articulava, capacitava e conectava a comunidade de Serrinha para seus desafios naquele momento.

E eu me vi como parte deste novo ciclo: me dava conta de como aquela história fazia parte da minha própria história de vida, e como a minha vida fazia parte de toda esta história; e como minha voz ou o silêncio, a presença ou ausência de uma reunião, afetavam toda a dinâmica deste lugar. Dali em diante, esperava-se de mim, como um habitante da Serrinha, algo a mais: sentia-me mais responsável por este lugar, e por isso também me sentia intimamente desafiado, e provocado a seguir em frente com mais afinco na realização daquele velho sonho, que agora já não era mais só meu.

A fase em que vivi uma desilusão com a vida comunitária local agregava um valor ao meu entendimento desta situação social: eu me sentia mais preparado a permitir que o meu entusiasmo retornasse, mas já sem cair nas armadilhas de expectativas falsas do significado de uma vida em comunidade. Eu sabia que as ações do dia-a-dia são ainda mais difíceis de dar conta do que fazer aquela audiência: na prática, propósitos comuns e ideais não eram suficientes para darmos conta dos limites que a ação coletiva encontra. Atividades comunitárias, ainda que fundamentais, não eram conveniente para muitos dos habitantes locais. Fazia-se necessário reforçar estas ações com a ocupação de espaços no próprio poder público.

Nem todos se sentem mobilizados por um estilo de vida da comunidade, mas o desenvolvimento de um sentido mais amplo de pertencer a Serrinha já me parecia algo mais plausível de ser amplamente desenvolvido: tratava-se de cultivar um sentimento de pertença, mobilizando e incluindo todas as diferenças em uma identidade que poderia abarcar a todos. Aí estava o grande poder na visão de Bertran: uma identidade social estabelece um limite que oferece uma noção de “dentro”, de “nós”, de “aqui”; nos convidava a reconhecer a nossa história neste lugar.


“Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força ― eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.”

Clarice Lispector – Pertencer.

Há quase 10 anos que já vivo nesta realidade social, no Sítio Beija-Flor, às margens do Urubu, na Serrinha do Paranoá, no entorno de Brasília. Esta experiência foi parte fundamental em meu próprio processo de tornar-me um adulto maduro, mais capaz de compreender e lidar com os paradoxos da vida real e entender como esses paradoxos também fazem parte de mim mesmo. Uma experiência que aumentou minha consciência sobre como cada escolha da vida faz a diferença para o todo em que eu pertenço.

Reconheço-me como um ser humano neste mundo complexo em que muitas fronteiras não são claras e outras tantas ainda estão por ser definidas. Sou um entre tantos neste mundo que vivem em um pedaço de terra no qual estamos submetidos à transições tão repletas de incertezas. Lembro-me da vida na cidade São Paulo, onde as fronteiras eram excessivas, pareciam imutáveis. Aqui, temos a oportunidade de fazer escolhas por caminhos que ainda sequer existem. Exerce-se um outro tipo de liberdade social, mas também com limitações, e de outra natureza.

Enquanto escrevo este ensaio, o movimento “Salve o Urubu” se organiza para nomear nossas ruas e conquistar os nossos sonhados códigos postais. As ruas são batizadas com os nomes de flores e árvores do Cerrado. Como de costume, apenas alguns membros proativos fazem o trabalho, e eu sou um coadjuvante. Também, como usual, muitas tarefas demoram muito mais do que havíamos planejado: eu mesmo deveria fazer uma placa para o nome da rua, mas os estudos e ativismo ficam sempre no topo das prioridades.

No carnaval, o jeito que encontramos para unir o útil ao agradável foi organizar um bloco de rua: enquanto medíamos as distâncias entre as casas, dançávamos e brincávamos com nossos vizinhos. Alguns reclamaram sobre os nomes escolhidos (“Como eles podem nomear a rua por Angico, uma árvore que não existe lá?”), e tentamos encontrar a melhor maneira de fazer todos satisfeitos ( “Estamos nomeando a rua com esta árvore porque ali vamos plantar muitos Angicos na próxima época de chuva”).

Semanas mais tarde, a Soraya, amiga que vive em uma das comunidades vizinhas nos convidou para um grupo de meditação ao redor do fogo. A noite era escura e de céu aberto, e o platô nos brindava com uma vista panorâmica do rio, do vale e do céu estrelado. Décadas atrás este mesmo platô era um campo de rochas mineração, para hoje estar coberto com grama e ornamentada com plantas. A meditação terminou com música, comidinhas naturais, vinho e bate-papo bem-humorado ao redor do fogo.

O papo dava voltas descontraídas no mesmo tema: a felicidade, e quanta energia desperdiçamos com a satisfação de desejos que não são sustentados por nossas necessidades reais. E quais são as nossas reais necessidades?

Sinte-me à vontade para compartilhar uma reflexão que surgia enquanto eu escrevia este artigo: “Para mim, pertencer é uma das minhas reais necessidades …” Para minha alegria, o grupo vibrou comigo neste pensamento. “Sim, nós pertencemos aqui, e esta é uma das nossas verdadeiras necessidades.”

Sem mais palavras por alguns instantes, continuamos dançando, em unidade com o fogo, o som do rio, a música, e o céu acima de nós. Dançando a alegria de pertencer.

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One response to “Sonhar e Pertencer: retrato de uma experiência de vida na Serrinha do Paranoá.

  1. Eduardo seu texto vai me ajudar em um artigo que estou escrevendo sobre o Urubu, gostaria de entrar em contato para ter mais informações sobre o início da ocupação do Urubu, nesses trechos que você cita: “Nestas conversas aprendi que, antes da existência de Brasília, a região de Serrinha fazia parte de uma das grandes fazendas de gado, naquela região remota do país. Com o advento de Brasília, pequenos agricultores pobres vieram do Nordeste e Centro-Oeste, após receberem ofertas de terras próximas aos rios com a perspectiva de produção de alimentos para atender as necessidades dos futuros habitantes da cidade.

    Mas quando chegaram à região se depararam com o fato de que essas terras não eram apropriadas para o plantio, e logo foram trabalhar em obras e outros serviços básicos de manutenção da cidade.
    A rápida expansão de Brasília afetou diretamente a região da Serrinha: uma segunda onda de habitantes surgiu nos anos 70 e 80, agora em sua maioria de classe média, muitos dos quais produtores rurais dos estados do sul, que por sua vez tinham melhores condições para investir em energia elétrica e melhoria de estradas”.

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