A Multidão e o Salto Civilizatório

Muito inspirado pelo chamado recente de Marina Silva para “sermos sonháticos”, resolvi dar vazão a alguns pensamentos que têm me visitado. Abaixo um primeiro ensaio contendo alguns destes elementos. Compartilho e peço comentários:

A Multidão e o Salto Civilizatório

Uma multidão de pessoas em todo o planeta está vivenciando um processo de transformação de consciência. Esta transformação ocorre de modo completamente integrado com acontecimentos de natureza bastante diversa: do desenvolvimento científico e tecnológico ao resgate de saberes ancestrais; do reencontro com a dimensão espiritual da vida à redescoberta da política; da mudança de hábitos de consumo ao reencontro com novos sentidos para a vida e o bem viver.

São pequenas e grandes rupturas com estruturas e valores do passado, que conformam um conjunto de transformações que podemos chamar de Transição Civilizatória (ou caminhada civilizatória). Como já ocorreu em muitas ocasiões da história, civilizações mudam alguns de seus aspectos mais estruturais, marcados por momentos que podemos chamar também de saltos civilizatórios. Do advento da agricultura até a revolução industrial, passando pelas grandes revoluções culturais e políticas, as multidões sempre aderiram a algo que seria inimaginável para as gerações que a antecederam, mudando definitivamente o curso da história.

Estamos na iminência de um destes saltos, que deverá atender uma necessidade fundamental: mudar o modo com o qual nos relacionamos com o planeta e como todos os seres vivos, o que inclui obviamente a própria humanidade como um todo.

A humanidade agoniza com muitas dores geradas por nossa inadequada relação com a vida; e se organiza em torno de causas diversas que buscam lidar com diferentes âmbitos deste sofrimento.

Após muitas tentativas de responder a estas agonias por meio de ideologias – comunismo, liberalismo, anarquismo, entre outros ismos – estamos descobrindo que estes caminhos não prosperam pois trazem em si uma lógica fragmentada e fragmentadora.

Estamos neste momento descobrindo as causas comuns que por sua vez possuem a capacidade de aglutinar e convergir as múltiplas maneiras de ver e se engajar no mundo para transformá-lo. Podemos chamá-las também de causas-síntese, pois possuem a capacidade de inter-relacionar e dar sentido a um conjunto de outras causas.

Quero aqui mencionar apenas duas destas causas comuns: a sustentabilidade e o reencontro com a política. (uma outra causa, a dos “commons”, já foi mencionada em post anterior).

A sustentabilidade é provavelmente a principal causa-síntese presente hoje na esfera global. Sua força emerge de imperativo para o qual a humanidade está despertando: o da urgência preservação da vida nas gerações futuras. Isto implica toda uma reconfiguração do nosso modo de nos relacionarmos com o planeta, que coloca em cheque uma boa parte da estrutura de produção e consumo gerados nas transições civilizatórias anteriores.

Já o reencontro com a política é um dos elementos que emergem do próprio desenvolvimento da humanidade, que vive um vigoroso processo de empoderamento das coletividades humanas e de desintermediação dos espaços de influência e decisão – fortemente propulsionado pelas novas tecnologias de comunicação. Os modelos de representação política e governança ficaram obsoletos, e as multidões estão produzindo estratégias inovadoras e surpreendentemente eficazes para influenciar os processos políticos.

Estas duas causas comuns, se observarmos a fundo, possuem um potencial enorme de aglutinar multidões imensas e assim transformar as estruturas que não servem mais ao desenvolvimento da humanidade.

É claro que elas não interessam ao status quo, e por isso os detentores de capital e os governos tentam mascarar suas ações em nome destas causas. Por um lado agindo fortemente para esvaziar o protagonimo das pessoas neste salto civilizatório.

Por outro, as corporações financeiras criam estratégias fabulosas para que a ideia de sustentabilidade seja moldada a seus interesses, a ponto de torná-lo uma ideia conservadora. (A estratégia se torna tão bem sucedida que até mesmo atores anti-hegemônicos passam a lutar contra a ideia de sustentabilidade.)

Quem detém os poderes hoje sabem disso e jogam firme para boicotar as possibilidades do salto civilizatório. O maior exemplo disso é o fracasso das instâncias internacionais que têm a possibilidade de mudar o jogo, como a COP 15 e a Rio+20, que está sendo também esvaziada.

Enquanto manipulam os espaços de decisão, os sistemas de poder acompanham minuciosamente este processo de transformação de consciência, investindo enormes energias moldá-lo aos seus propósitos. A diretriz produzir a sensação de que algumas mudanças nos hábitos de consumo e de bem-estar são suficientes para lidar com as agonias, porém mantendo as pessoas afastadas da política. Esperam assim poder continuar lucrativas e no controle da situação.

Porém, a transformação de consciência ocorre a partir da esfera íntima de nossas vidas, mexendo em crenças profundas arraigadas em nós. É este processo que opera e conforma a multidão; e esta consciência evolui com muito vigor e influencia todas as nossas relações, provocando muitas transformações, que são a verdadeira base da transição civilizatória.

Esta evolução está começando a chegar à esfera política, e o rimo progressivo desta influencia indica que poderá influenciar aspectos fundantes dos sistemas de governança, desde o nível local até o global.

O “salto” que marcará a nova civilização se dará quando a multidão sustentável, tendo assumido integralmente a sua força, conseguir provocar uma mudança clara na estrutura de governança global. Neste momento estas e outras causas comuns ou causas síntese serão plenamente assumidas pelos governos, que, necessariamente, iniciarão um processo de reconfiguração de seus modelos.

A multidão possui dois espaços fundamentais para sustentar o salto: o virtual e o territorial. É apenas ocupando e integrando plenamente ambos os espaços que o salto se tornará irreversível.

O momento agora é de preparar o terreno para a emergência desta multidão, o que implica:

desenvolver narrativas suficientemente fortes e agregadoras da diversidade de culturas, causas e sonhos que permeiam e motivam a multidão. Estas narrativas serão responsável para gerar um sentimento de pertencimento a um todo, e deflagrará a construção de narrativas específicas, mobilizadoras e aglutinadoras para o salto.
desenvolver convergências dos espaços e processos – virtuais e presenciais – ativadores da multidão. A multidão pode ser vista também como uma imensa comunidade de práticas sustentáveis, cujas experiências são a fonte verdadeira da transição civilizatória. Quanto mais os diversos fazeres e saberes são reconhecidos e compartilhados, mais as pessoas passam a viver na certeza de que estão num processo de transição, sem volta, e cujos responsáveis são elas mesmas. Hoje existem muitas e cada vez mais pessoas que já vivenciam esta experiência, e a tendência é que toda a multidão venha a se encontrar nesta mesma situação, em pouco tempo.
desenvolver relações íntegras nos espaços em que a multidão se encontra. Quando podemos ser inteiramente nós mesmos uns com os outros, somos mais felizes. O âmbito das nossas relações é onde as transformações íntimas que sustentam toda a transição civilizatória mais se retroalimentam. A transformação íntima se revela e é nutida nos gestos, nos olhares, no escutar, na verdade das palavras, elementos que, embora sutis, são extremamente reais. É no âmbitdo das nossas relações que está a verdadeira realização de um outro modo de viver, seja conosco, seja com as outras formas de vida.

Estes três componentes podem ser desenvolvidos por todos os que se sentem chamados a abrir caminhos para a multidão provocar o salto. Possibilitarão que a multidão se perceba como “o um pelo qual esperávamos”, ou seja, haja um sentimento de pertencimento a um todo, o que fará este todo mais vivo e pulsante. Ainda que o mesmo seja vago e traduzido com linguagens diferentes, o pertencimento será mais sentido e praticado do que racionalizado.

No âmbito destas relações que sustentam processos convergentes de transformações das nossas práticas no mundo, serão identificadas e respondidas as equações para um outro caminho civilizatório.

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8 responses to “A Multidão e o Salto Civilizatório

  1. Muito boa a reflexão Du. Concordo contigo que estamos vivendo uma transição civilizatória onde os elementos da política/participação e sustentabilidade são centrais. Você deve ter visto o vídeo do Galeano em Madri, em que ele diz que “ao mesmo tempo em que vivemos em um mundo injusto, desigual e insustentável, estamos experienciando a gestação um novo mundo”. Não podemos ver e sentir esse novo mundo ainda. Ainda…

  2. Muito bem Eduardo, compartilho deste seu sentimento de que algo grande está para acontecer nas relações humanas e do homem com a natureza.
    Agora, acho interessante criar grupos interdisciplinares de discussão sobre o tema tempo de transformação, pois como você mesmo apontou exitem marchas e contramarchas que pode fazer com que as mudanças demorem muito para acontecer. Na verdade a minha geração (que iniciará a fase do 50 anos) sempre sonhou e muitas vezes lutou por mudanças, mas os resultados são muitos lentos e as vezes desanimadores. Temos pressa e quem tem pressa deve acelerar os mecanismos para que funcionem mais rápido pois caso contrário corremos o sério risco de perder o bonde da história. Acredito que somente uma cultura que transforme o inconcisnete coletivo e seus simbolos viabilizará esta para era de Aquário.

    Abraços

  3. Bravíssimo meu caro Dudu. Felismente não existe a menor chance de não concordar com este seu claro e objetivo diálogo. Inspiradoras palavras. Me lembro bem, quando eu fazia TI em 2008, Bill Gates disse em uma das maiores Feira de Tecnologia dos EUA, o interessante é que o papa da tecnologia não falou em negócios, e sim, que o mundo precisava de relacionamentos. Eu percebo que o mundo esta despertando dessa letargia que nos foi imposta. ACREdito que muito em breve estaremos falando a mesma língua, as mudanças já começaram lá fora e aqui dentro, graças a Deus, é um caminho sem volta. Os grandes impérios, as grandes nações, que sempre nos contaminaram, de todas as maneiras e meios, já começaram a dar sinais de enfraquecimento e de esgotamento. E nós, povos civilizados, de bem querer, cientes das necessidades da nação e do planeta, com a comunicação instantânea a nosso favor, começa a dar os primeiros passos necessários para criar todos os elementos sustentáveis, importantes e transformadores, para a sobrevivência da raça humana. Eu ACREdito verdadeiramente nesse sonho realizável, que esta em nossas mãos do mundo todo.

  4. Olá Dudu – gostei dos ‘desenvolveres’. Por outro lado, espero que tenhamos uma caminhada civilizatória e não um salto – acho que caminhada tem muito mais a ver com o constante ‘desenvolver de narrativas’. Quanto mais a multidão for a direta desenvolvedora das narrativas, mais completa a desintermediação do viver.

    Ainda não me entendi direito para explicar bem 🙂 mas vai na linha da nossa conversa tomando chá inglês. Pensarei mais.

    O momento (e movimento) político com os novos acontecimentos ficaram muito mais interessantes – mais propensos a novas narrativas. Como é que você está pensando em ajudar na história?

    Grande abraço!

  5. Querido Sergio,

    Muito agradeço pelos comentários! Estou seguindo a máxima “publique depois edite”.

    Quando tiver algo bacana rolando por Brasilia me dá um toque? Quem sabe nos encontramos mais vezes em momentos inspiradores.

    abraços
    Du

  6. .
    Eduardo
    Fico muito dividido quanto a esta abordagem.

    Por um lado gostei muuuito, mas mais no sentido ” que bom seria se fosse assim mesmo, e que vai rolar a transição civilizatória (adorei o termo!) ”

    Por outro lado, vejo que sempre houveram movimentos de combate ao sistema e de revoltas contra as diversas hegemonias, e estes movimentos já tiveram diversas roupagens e modalidades. Mas, como vc exemplificou, o “sistema” acaba por os vencer, ou os absorver, ou os cooptar.

    Não vejo com muita esperança o “movimento de multidão”, pois que se não for organizado e canalizado claramente para um combate ideológico, de confronto mesmo com o siotema, acabará por dissolver-se com conquistas pontuais no espaço/tempo.

    Mas vamos a luta !!!

    Abs
    .

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