Tempo de convergências

Este é um começo de conversa com aqueles que também quiserem cuidar comigo desta muda que cresce no jardim.

De uns tempos para cá, a palavra “convergência” tem sempre acompanhado os pensamentos que me visitam. Ela me chama atenção por que sempre aparece trazendo alguma boa notícia.

No dicionário, convergência é “a tendência de várias coisas para se fixarem num ponto ou se identificarem.” Quando “as várias coisas” são pessoas, existe um encontro entre diferentes em torno de um propósito comum. No âmbito socio-político, utiliza-se o termo convergência quando há forças políticas distintas que se aproximam em torno de posicionamentos comuns.

Num mundo com tantas disparidades e disputas, onde mesmo as forças da sociedade que apontam rumos positivos para nossa evolução desperdiçam enormes energias simplesmente por não saberem dialogarem entre si, as convergências são muito bem-vindas.

Alguém pode contra-argumentar dizendo que existem convergências perversas, quando alguns se unem para submeter outros às suas vontades. Mas eu respondo a elas observando a radicalidade do termo: aqueles que se unem para dominar (ou explorar) outros, passam a ser um só junto com outros. No fundo cometem um crime contra si próprios, aniquilando a sua própria condição de ser singular, e portanto diverso. Não são “vários” com uma tendência para um ponto em comum.

Nós precisamos de convergências entre nossos mundos, como caminho para emancipação da humanidade.

Por exemplo o “desenvolvimento sustentável”, uma das principais bandeiras de uma transição civilizatória, é inviável sem reais convergências entre aqueles que seguram seu mastro. E aqui estamos tratando de um tema extremamente complicado, pois “desenvolvimento sustentável” tornou-se um ponto de convergência entre pessoas e organizações radicalmente diferentes entre si, que pertencem a mundos paralelos e falam línguas distintas. Como não poderia deixar de ser, têm conceitos diferentes sobre a mesma ideia de “sustentabilidade”. Ou ideias diferentes sobre um mesmo conceito.

A questão se torna ainda mais complicada se adensarmos a conversa para os processos reais que sustentam o conceito de “desenvolvimento sustentável”. As convergências em prol da sustentabilidade requerem revisões de aspectos estruturantes das dinâmicas sociais, políticas, econômicas e culturais. Diferentemente do tradicional jogo político onde as convergências majoritariamente se dão em torno de questões pontuais, a sustentabilidade nos demanda convergirmos os processos que sustentam nossas próprias vidas. Trabalho duro, esse.

Uma convergência que me salta aos olhos é o universo dos “commons”, ou dos comunais. A partir da questão “A quem pertence o mundo?”, Silke Helfrich propõe “A redescoberta do Commons” como um caminho de “convergência dos movimentos”.

Reunindo ambientalistas, agricultores orgânicos, movimentos de software livre, open source, open data, cultura livre (free culture), creative commons, e iniciativas para apoiar países em desenvolvimento, Silke ajudou-os a encontrar um sentido de complementariedade entre suas práticas na defesa do “uso justo de tudo o que não pertence a uma única pessoa”, e agora dedica-se a expandir este campo de convergência construindo uma “plataforma política baseada no ‘commons’”. Os que sustentam este projeto, acreditando que “eu preciso dos outros e os outros precisam de mim”, pretendem que a plataforma se expanda e agregue muitos outros movimentos e causas como alicerce de uma transformação social mais ampla e profunda.

O exemplo dos commons ilustra bem o que eu chamo de uma convergência de processos: atores que habitam mundos diferentes, falam línguas completamente distintas, encontram algum ponto em comum no horizonte. Não se trata de um acordo político específico, limitado ao tempo e espaço: trata de participar de um campo que pode alterar até mesmo o significado e os rumos das ações destes agentes no mundo, que passam enxergar-se como parte de um todo mais definido, mais potente.

O campo de convergência é um atrator que os convida a expandir suas capacidades de transformar o mundo tornando-se mais interconectados, mais capazes de influenciar e serem positivamente influenciadas. Práticas transformadoras podem tornar-se mais singulares e potentes a partir da convergências com outras práticas.

Como dito no início: este foi um começo de conversa. Se você tiver adubo, água ou mesmo sementes que possam se consorciar com minha pequena muda, seja bem-vindo para cultivar ideias junto comigo.

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5 responses to “Tempo de convergências

  1. Francamente tenho antipatia por todo tipo de programa político coletivista, seja “clássico” ou recauchutado. Em minha opinião o mais bonito da campanha da Marina foi a liberdade em que indivíduos e grupos conseguiam se apropriar dos signos propostos por indivíduos e grupos não necessariamente no centro da rede para um objetivo comum, em suma, o de ter sido um esforço que não pode ser enquadrado nem em valores coletivistas nem em valores individualistas. Algo que não está em um campo intermediário entre coletivismo e individualismo, mas está além dele e que precisa ser decifrado apropriadamente.
    Em suma, eu não abandonaria de jeito nenhum o marco conceitual de rede. Por outro lado sua reflexão sobre convergência é interessante e pertinente. Estava pensando nisso vendo o tipo de convergência que o mainstream está tentando construir, e sua base discursiva se estrutura na apropriação de todos os tags disponíveis a sua maneira. E os tags que não estão disponíveis podem ser apropriados acrescentando-se os prefixos “anti” ou “in”. Exemplifico com o mais recente post do esgoto: http://www.idelberavelar.com/archives/2011/01/insustentavel_sustentabilidade.php
    Acredito na primazia no jogo de redes de uma convergência daqueles que divergem sobre um mesmo aspecto. Não é a mais bonita das convergências, nem a mais profunda, mas é sem dúvida a mais ampla e que pode acolher outras convergências mais substantivas. Mas para tanto é preciso exercê-la de forma sistemática.

  2. Pingback: Como ampliar nossa capacidade de transformar o mundo? | blog do Eduardo Rombauer·

  3. Caro Eduardo, tenho entrado em contato com “N” marineiros, sem retorno.
    Creio que a convergência entre nós seja uma necessidade, para “ampliar nossa capacidade de transformar o mundo”. Para que isso aconteça, temos que conhecer e divulgar entre nós os acontecimentos nefastos que afetam o mundo e por “tabela” o Brasil.Se todos nós marineiros divulgarmos, as mensagens que nos chegam, estaremos aprofundando nossa consciência política e humanitária. Embora virtualmente, devemos nos conhecer, saber que o desejo por um Brasil melhor não é apenas sonho. Quantos pensam apenas em corruptos e em novas eleições ? Temos que ampliar nosso leque de conhecimentos . Poucos se apercebem do Poder-Econômico-Mundial, que é a base da crise do Planeta, há décadas. Menos ainda se importam com o excesso populacional.
    Falarmos apenas em +1 ou novas casas de Marina ou encontros nesta ou naquela cidade, é DESALENTADOR.
    E assim vão-se os que eram mais entusiasmados.

    Espero seu retorno
    Abraços
    Neyde

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